06 abril 2007

Rua Felipe Schmidt – O coração da cidade


Na primeira foto, obras de alargamento da rua, na década de 1930. Na segunda imagem, o mesmo cenário em registro feito recentemente


Texto de Carlos Damião
Publicado em A Notícia (AN Capital), outubro de 2002


“A cidade passava por ali”. A frase do jornalista Aldírio Simões, colunista do ANcapital, define com perfeição o significado da Rua Felipe Schmidt para Florianópolis, pelo menos até os anos 80, quando a cidade ainda respirava o clima de província e não havia sido inteiramente invadida. Passar por ali significava saber das últimas, conferir se alguém morreu, palpitar sobre quem ganharia a eleição, falar mal da vida alheia.
É importante separar a rua em três partes: a primeira quadra, entre a Praça 15 de Novembro e a Trajano, a segunda, entre esta última e a Jerônimo Coelho, e a terceira, da Jerônimo Coelho até o final, nas proximidades da Ponte Hercílio Luz, onde havia o antigo bairro do Estreito (insular). São três ruas diferentes e foi sempre assim, desde o século 19, quando Florianópolis começou a crescer no sentido Oeste. Embora a Conselheiro Mafra, por causa do comércio, tenha sido a mais importante da capital até o início do século 20, mais tarde a Felipe Schmidt acabou se transformando na principal da cidade. Não só principal, mas também a mais charmosa, elegante, freqüentada e observada.
Sua origem remonta ao século 18, embora tivesse pequena extensão, indo até as imediações da atual Praça Pio 12, onde está hoje o estacionamento subterrâneo, ao lado das Lojas Americanas. O primeiro nome registrado, conforme o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral, foi “Rua da Fonte do Ramos”, numa referência à fonte de água que brotava no local, depois chamado de Fonte da Carioca e Largo Fagundes.
Mais tarde, por causa dos moinhos de beneficiamento de arroz que os açorianos mantinham na região, foi denominada Rua dos Moinhos de Vento. A esse nome seguiu-se o de Rua Bela (1817), Rua Bela do Senado (1865), Rua do Senado e Rua da República (1889). Felipe Schmidt seria uma homenagem ao governador catarinense que, na década de 10 do século 20 conseguiu resolver “a velha questão de limites com o Paraná” (segundo Cabral).
Até a década de 1920, a rua conservava seus traços arquitetônicos, tipicamente coloniais, segundo a arquiteta Eliane Veras da Veiga, em seu livro “Florianópolis: Memória Urbana”. Em 1926, foi inaugurada a Ponte Hercílio Luz, que daria um novo perfil urbano para a capital, tirando a Ilha de Santa Catarina do isolamento em que se encontrava até aquele ano. A Felipe Schmidt passou a ser, então, a principal via de acesso do centro da cidade até a ponte, uma vez que o principal obstáculo – o cemitério municipal – havia sido removido um ano antes. A cidade crescia, aumentava o número de automóveis e era preciso prepará-la para os anos seguintes. Por causa disso, o então prefeito Mauro Ramos decidiu pelo alargamento da via, que até então mantinha as características originais, equivalentes às ruas Tiradentes e Fernando Machado de hoje.
O registro do pesquisador Adolfo Nicolich, em seu livro “Ruas de Florianópolis”, aponta o ano de 1928 como o do início das obras que poriam abaixo uma quantidade não identificada de casas térreas e sobrados típicos da arquitetura portuguesa e açoriana. “Vários cortes alteraram seu perfil”, registra Eliane Veras da Veiga. “Foi largada por volta da década de 30, o que provocou uma modernização edilícia, afastando-a de sua velha aparência colonial. Os prédios mais antigos tiveram de ser demolidos, ao exigir-se um recuo; outros tiveram suas fachadas reformadas, adotando uma decoração eclética. Alguns especialmente construídos por grandes e tradicionais firmas comerciais da cidade, passaram a adotar linhas similares, caracterizando visual próprio da empresa. Tais prédios podem ser observados ainda hoje”.
A segunda grande transformação da rua aconteceu a partir de 1976, quando foi concluído o calçadão, uma decisão do então prefeito Esperidião Amin, inspirada no modelo curitibano. Amin previu a explosão populacional da cidade e, após estudos técnicos, determinou o fim do reinado do automóvel, no trecho entre a Praça 15 de Novembro e a Rua Álvaro de Carvalho. Até porque, àquela altura, com a inauguração da segunda ponte – a Colombo Salles –, o uso da Felipe Schmidt como via de acesso à Ponte Hercílio Luz perdera importância. Dois anos antes, eram comuns os engarrafamentos que iam justamente da praça até a ponte, por causa do volume de tráfego.

Rua Felipe Schmidt – Parte 2

“No Senadinho ou na figueira se decidem os destinos do mundo. E o Senador vitalício, rodeado de sua corte, dá audiências e pontifica”. [Salim Miguel, na crônica “Não tem mais Ninguém”].

Lendas da Felipe Schmidt

A Felipe Schmidt, como centro de fofocas e falatório, foi sempre palco de histórias, umas bem, outras mal contadas. Entre as lendas do lugar, resgatamos três:

O “dono” dos carros

Aderbal Ramos da Silva era governador do Estado (1946-1950) e, apesar da pompa do carro, às vezes deixava seu carro estacionado nas imediações do Senadinho. Adolfo, guardador de carros – o ‘flanelinha’ da época – percebeu quando aquele homem severo aproximava-se do veículo, com as chaves na mão, pronto para abri-lo. “Um momento”, gritou Adolfo. O governador virou-se e viu o pobre coitado ao seu lado, em atitude intimidatória. “O que foi?”. O guardador não se fez de rogado e lascou: “Este carro é meu”. Aderbal entrou no jogo. “Ah, é seu? Quer vender?”. Ao que Adolfo assentiu positivamente com a cabeça. “Quanto é que você quer por ele?”. O rapaz estipulou um preço, equivalente a R$ 1 na moeda de hoje. Aderbal pôs a mão no bolso, catou umas moedas e “comprou” a liberdade do seu próprio carro.
O guardador, que não batia muito bem da bola, vivia se atritando com os donos dos carros e também com um guarda de trânsito, Marrequinha, outra figura folclórica da região central. Era o guarda aparecer para multar os automóveis estacionados irregularmente que Adolfo punha-se a discutir, autonomeando-se proprietário dos veículos. As discussões entre os dois eram célebres e chamavam a atenção de todos os que freqüentavam o Senadinho.

A orelha de Cesar Cals

O episódio da Novembrada (30 de novembro de 1979) começou na Praça XV de Novembro, em frente ao Palácio Rosado (depois Cruz e Sousa) e terminou na Felipe Schmidt, nas imediações do Ponto Chic. A assessoria do presidente João Figueiredo, que errou em tudo naquele dia, previu uma descida do general à praça, onde inauguraria uma placa em homenagem a Floriano Peixoto, seguindo depois para o Senadinho, onde a comitiva provaria o tradicional cafezinho e entraria para a história da instituição. Com a confusão armada na praça, populares destruíram a placa que lembrava o marechal que mandou matar mais de 100 desterrenses em 1893. A fúria prosseguiu pelo calçadão, onde a segurança fazia de tudo para deter os rebeldes, protegendo Figueiredo e seu staff. Entre os acompanhantes do general estava o ministro das Comunicações, Cesar Cals. Atingido por um tapaço na orelha, supostamente desferido por um motorista de táxi, Cals foi ao chão. Segundo a lenda, foi o único do grupo presidencial que sofreu alguma agressão física.

As meninas do Coração

A Felipe Schmidt foi, nos anos 40 e 50, a rua do “footing”, o tradicional passeio dominical das moças solteiras, que faziam o trajeto entre a Praça XV de Novembro e a esquina com a Rua Trajano várias vezes. “Elas vinham e voltavam”, lembra Aldírio Simões, “despertando idéias românticas e sensuais nos rapazes que circulavam durante as tardes, depois das vesperais dos cinemas (São José e Ritz)”.
Nos anos 60 e 70, o “footing” já não existia e a aglomeração masculina nas esquinas da Felipe Schmidt se dava por outra razão, especialmente nos dias de vento sul: assistir a passagem das estudantes do Coração de Jesus, até então um colégio exclusivamente feminino. Elas usavam saias beges plissadas que, ao sabor do vento intruso, às vezes subiam à cabeça, causando furor generalizado entre os rapazes.
Por causa do “footing” e das meninas do Coração a Felipe Schmidt foi considerada, durante muitos anos, a rua “da paquera”, num tempo em que não havia os shoppings, nem a Avenida Beira-Mar e pouca gente tinha carro para freqüentar as praias de Coqueiros, muito menos Canasvieiras.

Rua Felipe Schmidt - Parte 3

Figuraços da Felipe

O cronista da cidade, Beto Stodieck [esquerda], e o senador Alcides Ferreira, na esquina da Felipe Schmidt com a Rua Deodoro. Imagina-se que eles tinham acabado de sair do Cartório Luz, onde pediram a bênção habitual à Ciloca, filha do ex-governador Hercílio Luz. A obra que aparece à direita é a do ARS

O Senador – Alcides Hermógenes Vieira, elegante, impecável em seus ternos de linho branco, foi o personagem mais importante da história do Ponto Chic, ainda que pelo café tenham passado presidentes e candidatos a presidente da República. Conhecido como “Senador”, funcionário público, gozador emérito, entrou para a galeria dos tipos inesquecíveis da Rua Felipe Schmidt e adjacências pela irreverência com que abordava os mais diversos temas. Entre seus companheiros prediletos dos últimos anos estavam o jornalista José Hamilton Martinelli, Hercília Catarina da Luz (filha de Hercílio Luz e dona do cartório Luz), Cláudio Morais, entre outros. Com Martinelli (Martina) difundiu algumas das melhores histórias do folclore ilhéu.

Lurdes da Loteria – “Vai um bilhete da Federal, engenheiro agrônomo?”. No outro dia, o mesmo personagem abordado poderia ser médico, deputado, jornalista, qualquer coisa que viesse à cabeça de Lurdes da Loteria, uma personagem inesquecível da Rua Felipe Schmidt, ao longo de mais de 20 anos. Sempre bem vestida, séria, muitas vezes com uma renda prendendo o cabelo – o que lhe dava a aparência de uma evangélica ortodoxa –, Lurdes vendeu seus bilhetes para anônimos passantes, políticos, empresários, sem que se saiba se alguém, algum dia, conseguiu abiscoitar um “grande prêmio”. A vendedora morreu vítima do incêndio de sua casa de madeira.

O homem do Globo – Nos anos 60 e 70, outro figuraço que circulava pela Felipe Schmidt, sempre vestido de macacão azul, cigarro no canto da boca, era Ademar, o “homem do Globo”. Seu grito (“O Glooobôôô!!!”) era inteiramente integrado à paisagem humana do lugar, num tempo em que a leitura do jornal carioca era considerada fundamental para a atualização dos ilhéus, fato que justificava por inteiro a existência de um jornaleiro exclusivo.


Felipe Schmidt – Curiosidades

· A Igreja de São Francisco, na esquina com a Rua Deodoro, é o prédio mais antigo da Rua Felipe Schmidt, inaugurado em 1815. Nos fundos da igreja, ficava o cemitério da irmandade que administrava o templo católico. Desativado, o terreno foi adquirido pelo político Aderbal Ramos da Silva, que construiu em seu lugar o Centro Comercial ARS. (*)

· O Lux Hotel foi construído por volta de 1945, constituindo-se em um dos mais importantes estabelecimentos do gênero em Florianópolis, abrigando políticos e outras personalidades que visitavam a capital. Em seu térreo instalou-se o café Ponto Chic, cujo proprietário mantinha o Café Quidoca, num sobrado ao lado.

· Em frente ao Lux, havia a Confeitaria do Chiquinho, cujo prédio durante muitos anos abrigou a Lojas Arapuã e foi restaurado recentemente pela Livrarias Catarinense. O Chiquinho era um dos pontos de encontro mais imponentes de Florianópolis, famoso pela qualidade de seus quitutes.

· Próximo ao Largo Fagundes, hoje Praça Pio XII, havia uma casa noturna chamada Hemorragia, onde muitos homens dos anos 50 faziam suas “despedidas de solteiro”, naturalmente que muito bem acompanhados pelas meninas da boate.

· Um pouco acima, próximo à esquina com a Rua Bento Gonçalves, funcionou durante alguns anos a Boate Paineiras, que reunia a juventude dos anos 70.

· Entre os bares, destacavam-se o Alvorada, reduto da boêmia que existiu até a década de 70, e o Nipon, uma pastelaria que oferecia a antológica “cachamel”, uma caipirinha de mel servida em copos do tipo “martelinho”.

· O Café Nacional, também na primeira quadra, era conhecido como o “café dos políticos” nos anos 50.

· Duas emissoras de rádio funcionaram durante anos na Rua Felipe Schmidt: a Diário da Manhã, no edifício Comasa, e a Santa Catarina, no edifício Zahia.

· Quando morria alguém conhecido, os amigos pregavam um aviso na parede de mármore do Ponto Chic. A tradição se manteve até poucos anos.

· No final da Rua Felipe Schmidt, que era a saída da cidade, funcionou durante décadas um dos primeiros postos de gasolina da cidade, ao lado do mais tradicional restaurante de Florianópolis, o Lindacap, destruído por um incêndio há dois anos e reconstruído há poucos meses.

· A Livraria Record, existente na esquina com a Trajano, é o único estabelecimento da rua que mantém sua atividade original. Chamava-se Livraria Central, na década de 30, quando houve o alargamento e era de propriedade de Alberto Entres.

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(*) Aqui há um equívoco. Na verdade, o cemitério foi desativado no século 19. Quando Aderbal decidiu construir o ARS, foram demolidos os casarões que existiam nas ruas Felipe Schmidt, Jerônimo Coelho, Deodoro e Conselheiro Mafra. Alguns desses imóveis eram de propriedade da Hoepcke.